segunda-feira, 21 de maio de 2007

Ceticismo em debate: agnosticismo x ateísmo

A discussão sobre "evolucionismo x criacionismo" ainda é polêmica, principalmente por abordar questões cruciais sobre a veracidade de diversas doutrinas religiosas. Porém, para muitos daqueles que se consideram céticos e defensores da evolução, especialmente agnósticos e ateístas, esta discussão já se tornou absurda. Até o momento não foi encontrado qualquer evidência ou prova de veracidade sobre a existência de um Deus criador e onipresente, tão pregada em religiões pelo mundo. Tudo o que ainda resta nesta discussão são as fortes evidências à favor da evolução e as argumentações falaciosas em prol do criacionismo religioso.

Pode-se dizer que a comunidade cética é composta por dois principais grupos no que diz respeito à crença religiosa, se assim podemos chamar, já que ceticismo não é uma religião. Os agnósticos são aqueles que defendem a "impossibilidade de se comprovar a existência ou não de Deus". Os ateus são aqueles que não acreditam na existência de Deus por considerar isso "muito pouco provável". Pode-se dizer que existem ainda subdivisões destes dois grupos, existindo, por exemplo, os agnósticos teístas (aqueles que acreditam na existência de um Deus mas admite que sua existência é bastante incerta), ateístas fracos (ou agnósticos ateístas, que acham muito pouco provável a existência de Deus, mas admitem alguma possibilidade de sua existência) e os ateístas fortes (que afirmam ter certeza da inexistência de Deus).

O debate "agnosticismo x ateísmo" é muito importante dentro da comunidade cética pois trata-se de duas posições crédulas distintas, embora boa parte das pessoas não saibam sequer distinguir as principais diferenças. Comumente os agnósticos são "rotulados" pelos ateus como "indecisos" ou "em cima do muro" no que diz respeito ao posicionamento teísta ou ateísta. Em contrapartida, os ateus, que defendem a inexistência de Deus de uma forma mais convicta, muitas vezes são vistos pelos agnósticos como "pseudo-céticos", pois não apresentam evidências e provas que concretize de fato a inexistência de Deus.

Embora eu não conhecesse a existência dos termos "ateu" e "agnóstico" e nem mesmo qualquer "posicionamento religioso" que refutasse a existência de Deus, posso dizer que desde muito cedo eu já duvidava desse tal acolhedor e temido "papai do céu". A célebre frase "Deus é uma teoria", proferida pelo meu professor de religião da 6ª série em 1992, foi algo impressionante e ao mesmo tempo muito tranquilizador, já que eu sempre fora muito afastado de qualquer tradição religiosa. Apesar de inusitada, esta frase corresponde a uma visão agnosticista teísta, estando distante de uma afirmação ateísta de descrença em Deus.

Na verdade não é raro algum crente moderado acabar por admitir um certo ceticismo quanto à sua crença ao ser "interrogado" por algum cético bastante insistente. Até mesmo alguns evangélicos admitem que Deus existe apenas sob a forma de fé, sendo que muitas vezes não demonstram uma sincera convicção própria sobre sua existência. Pode-se dizer que neste caso existe o chamado "orgulho pela crença" ou "necessidade de acreditar". Há casos em que há relutância maior em duvidar da existência de Deus, mas nem sempre isso corresponde a um teísmo convicto. Muitas pessoas associam fortemente alguns princípios vitais como moralidade, justiça, felicidade e esperança à suas crenças religiosas envolvendo Deus. A perda da crença neste caso poderia significar a perda destes valores importantes muito cultivado por boa parte da espécie homo sapiens sapiens. Isso pode corresponder ao "receio de não acreditar". Há também muitos outros exemplos interessantes como "achar que acredita", "ter que acreditar", "estar acostumado a acreditar" etc.

Oras... Tratando-se de incerteza, até mesmo algumas pessoas que não se colocam como agnósticas ou ateístas muitas vezes enxergam a existência de Deus como algo bastante incerto. Sendo assim, não é um exagero concluir que um agnóstico é alguém que apenas "admite" estar incerto quanto à existência ou não de Deus. No fundo, muitos dos que se dizem teístas também estão incertos, mas hesitam em admitir esta dúvida por motivos diversos como vergonha, receio e até mesmo preconceito, já que muitas vezes o ceticismo é visto como uma conduta arrogante, infeliz, fracassada e desesperançosa. Sendo assim, alguns teístas não-radicais poderiam se tornar agnósticos apenas por admitir suas próprias incertezas.

O parágrafo anterior pode dar a impressão de que estou colocando agnósticos e teístas "no mesmo saco". Mas é importante ressaltar que apenas uma parcela dos teístas já se sentiram céticos quanto à sua própria crença. Um agnóstico se difere em muito do teísta moderado simplesmente por estar seguro e livre por questionar a fé em Deus, algo que não é fácil para a maioria. Porém, o agnóstico também pode sentir algum tipo de receio em afirmar uma descrença mais forte em Deus, o que faz com que muitos destes céticos simplesmente abandonem este assunto por julgar polêmico demais para pouca ou nenhuma importância em suas vidas.

Fui agnóstico durante a maior parte de minha vida, simplesmente por achar estranho acreditar em algo que nem sequer podemos ver, sentir, escutar... Mas eu também tinha o receio de afirmar com veemência que Deus não existia. E por que? Bem, apesar de meu ceticismo eu ainda dava muita importância ao tal "Deus", sendo mais ou menos algo como: "Se muitos falam, é possível que ele realmente exista". Acontece que no meio científico e cético frases como "muitos acreditam", "muitos defendem" ou "é possível que exista" não torna mais ou menos provável a existência de qualquer coisa. Por exemplo, para se dizer que o evolucionismo existe, ou apenas classificá-la como uma "teoria", foram necessárias muitas evidências e indícios fortes para que ela fosse finalmente vista como algo realmente "possível".

Portanto, considero sim o posicionamento agnóstico como "em cima do muro" e/ou "não quero encrenca com ninguém" e/ou ainda, "não quero me comprometer". Atualmente como ateu eu acredito na inexistência de Deus assim como acredito na inexistência de muitas outras coisas que poderiam ser imaginadas. Ser agnóstico pode corresponder tanto à incerteza da existência de Deus como da incerteza da existência de algum "dragão invisível na garagem". O ser humano racional deve procurar por indícios e provas sobre qualquer assunto pelo qual deseja esclarescer, por mais polêmico que seja. Não é incoerente afirmar que algo não existe enquanto não houver evidências que reforçe a crença de sua existência. Por acaso seria incoerente afirmar que duendes não existem? Alguma pessoa teria a "sensatez" de dizer que "a existência de duendes é algo ainda incerto"? Renunciar à mais provável certeza da inexistência de Deus pode ser comparado à renúncia de diversas outras certezas.

Tudo leva a entender que a probabilidade de Deus existir diminui na medida em que a ciência avança, portanto, segundo esta lógica, é válido dizer que estamos cada vez mais "ateus". Algumas atribuições dadas a Deus como, por exemplo, moralidade, origem da vida, fenômenos "paranormais" etc. já foram "desmistificadas" pela ciência, e a tendência é que qualquer "nova atribuição" venha a ser refutada.

Este artigo foi elaborado para o debate interblogues cujo tema é “Será o agnosticismo mais racional que o ateísmo?”